2 de nov. de 2009

alguma coisa de trágico e definitivo

Quando eu tinha meus dezessete anos, fazia uma idéia do amor. Pensava do amor maravilhas. "vou ser muito feliz, muito feliz", era o meu sonho, o meu desejo profundo. E, depois, quando me enamorei, quando me apaixonei, descobri a mais estranha das verdades: não havia entre o meu amor e a felicidade a menor relação. Eu amava e era infeliz. Descobri ainda, outra verdade: eu era infeliz, ele era infeliz. E não tínhamos culpa nehuma, nenhuma. Não fazíamos nada para merecer o nosso infortúnio. Lembro-me que, na época, uma senhora amiga, de vasta experiência amorosa, dizia assim:
- Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo.


(myrna. ou melhor, nelson rodrigues)

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Vamos admitir que o amor não passa de uma ilusão - E daí? Antes de mais nada, qualquer ilusão é susceptível de eternizar-se, de durar a vida inteira. Quantas pessoas não vivem e morrem com uma série de ilusões? Quantos homens e mulheres não vivem iludidos. E, nesse caso, que diferença fará uma ilusão de uma realidade, tanto mais que ela exista para enfeitar, para embelezar, para poetizar a vida?

[...] Que seria de nós, que seria da vida, que seria do mundo, se, de repente, todas as ilusões desaparecessem da face da terra?

- Ninguém mais suportaria a vida, ninguém mais suportaria o mundo.

Portanto, o amor pode ter todos os defeitos, menos esse. O fato de ser ou não ser uma ilusão não exprime nem uma virtude, nem uma falha. Só uma coisa, na realidade, importa: o tempo que durará a ilusão. Digamos que seja eterna. Impossível desejar um bem melhor, uma sorte mais lírica e mais feliz do que uma ilusão que resiste a todas as provas e acompanha a pessoa até o túmulo.

(myrna. ou melhor, nelson rodrigues)



Um comentário:

  1. Somos alimentados a viver de ilusão desde a infância quando nossos pais ou entusiastas nos indagam sobre o que vai ser quando crescer. Somos a todo momento induzidos às belíssimas profissões da engenharia, medicina, ciência. As artes sempre deixadas de lado, afinal, a arte se resume à colorir uma vaca de roxo no terceiro período "...esse garoto é um artista, praticamente um Matissè...", mas agora vai fazer o dever de matemática meu filho!

    Os números sempre nos tomam de assalto, inclusive nas questões onde eles não pertencem, ou não deveriam. Temos que crescer, ficar fortinho, escolher uma profissão bem-sucedida para enfim constituir um lar, ser famoso "chefe de família". Onde as belíssimas esposas entram com os sentimentos, e os esposos com o alimento. Pena que sempre esquecem das almas, e elas ficam vagando por aí, vazias, evasivas em busca de amor?!

    Voltando novamente à infância, contos-de-fadas sempre nos rondam. Princesas, sempre belíssimas, bruxas, sempre horrorosas, depois ainda acham ruim quando as pessoas associam o exterior com a essência. Sapos virando principes. Beijos que despertam os mortos. Amor eterno. Porém, não temos dimensão das coisas quando criança, ainda bem, em algum momento da vida somos agraciados a não ver o homem como um ser patético e decadente que age corretamente pelas formas erradas.

    Crescemos e o que vemos é a quebra de tudo aquilo que foi construído. Estou me recuperando da queda do muro da infância até hoje, catando uns caquinhos de fantasia espalhados pelo chão. Nos resta decidir se vamos nos tornar homens comuns ou homens ociosos "pois é como são tratadas as pessoas que não se portam como engrenagens".

    Prefiro a ilusão, prefiro o amor, prefiro acreditar no que sinto e não no que vejo. O homem é uma ilusão, eu não e tão pouco meu amor!

    ps: adorei me sentar...mas infelizmente não sou um bom inglês...fico pelo bom papo! =)

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Well... vejamos... eu poderia dizer que...
Fiquem à vontade!