23 de out. de 2009

O balde era marrom

Hoje, agora, há poucos minutos atrás, aconteceu coisa imensa: toda a tolice que eu carregava em mim se despejou em cima de meus próprios cabelos, deixando-me como naquelas cenas de novela em que a moça (pobre moça) leva um balde de tinta de um colega malvado. E ela, desolada, vai chorar escondida, toda verde ou amarela (nunca entendi por que elas não choram no chuveiro, tão mais prático)... Aí, vem sempre um moço bom. Ah, os moços bons... e seus lenços e caronas em cadilaque.
Pois é, hoje, agora, há poucos minutos atrás, caiu um balde de tolice e molhou os meus cabelos e omoplatas. E não houve moço que secasse minhas lágrimas, mas isto não tem problema pois já estou acostumada à hipocrisia de minha auto-suficiência e posso muito bem fingir que não preciso chorar. (Psst: os travesseiros continuam molhados).
O fato é que a tolice que habitava o meu ser se despreendeu com força e levou de mim um pouco de mim.

E eu soube que:

Número 1: não, os ímpetos de amizade não são universais. (Há alguns minutos atrás, eu achava que todas as pessoas do mundo seriam, em breve, amigas e compartilhariam comigo algumas flores de maio. Além de minha recompensa especial por sempre ter acreditado nisto).

Número 2: não, não se fabrica amor deste tamanho.

Número 3: a minha existência não vai salvar o mundo, só porque eu tenho ótimas idéias (cerca de 83 por dia).

Número 4: não há comunicações perfeitas e tudo isto pode mesmo dar em equívoco.

Número 5: não há a opção "foda-se". A merda sempre volta se não for bem saneada.

Daí que eu me senti bem limpinha. Depois da baldada de tolice na cabeça. Agora, sinto-me de alma lavada. Porque é mesmo bom ficar livre das ilusões.

Vixe, esqueci-me de um item:

Número 6: sim, ainda há muita ilusão presa no bueiro.

tempo tempo tempo tempo

Naquele tempo, eu andava pelo mundo a tomar cervejas, a exercitar o amargo, a vibrar risos metálicos.
Alucinada, agarrava-me a toda qualquer potência de afinidade que me parecia mais ou menos nítida.
Naquele tempo, eu não usava óculos.
Naquele tempo, que é agora, eu já amei porque soube da possibilidade.
Parece confusa esta simplicidade?: reencontrar o amor que não se conhece.
Afirmo.
A separação antes do beijo...
A euforia diluída antes da festa...
Tudo possível.
Afirmo.
Veja: estou selando nossa separação, porque já basta de amor por hoje.
Mas ainda assim, cantarolo, na esperança de estratégia comunicativa de efeito: "num outro tipo de vínculo." Você conhece a canção, não?
Eu disse num outro tipo de vínculo. Atente para o enigma: veja o contrário.
Eu aguardo sua inteligência pois estou com muita sede.

22 de out. de 2009

as panelas azuis da minha avó

Primeiro eu escolhi levar para mim um conjunto de panelas azuis. Era azul clarinho. Minha avó havia morrido há três anos e pela primeira vez eu visitava sua antiga casa - e não mais sua ausência.
Então eu lembrei subitamente daquelas panelinhas que até pareciam de brinquedo. A única diferença é que eu estava de adulto naquele momento.
As panelas: o azul e as florzinhas. Um leve enferrujado. Ferrugem leve. Panelas de ferro.
Ferro pintado de azul. Eta, lindeza!
- Elas estão como novas, há mais de 100 anos - este era o orgulho de minha avó: mostrá-las junto a esta frase. Ritual repetido por todos os anos de minha infância, em julhos de jabuticaba temporona ou no dezembro das mangueiras.
Para levá-las, eu tinha uma condição minha: desocupar alguma prateleira da minha casa empilhada. Pensei na estante da sala.
- Mas panela enfeita é cozinha.
Na sala. Tiraria os cds e colocaria em alguma caixa. No lugar, as panelas se enfileirariam, em ordem crescente (mas isto, como se sabe, é questão de ângulo). O ambiente, então mais azul, engrandeceria os olhos. Plano perfeito. Decidido.
No meio das panelas, uma mantegueira. De ferro azul. Clarinho. As mesmas florzinhas vermelhas. Coisa antiga e preciosa, escondida no gavetão dos tesouros.
- Mas elas estão como novas há quase 100 anos.
Sempre tive uma vergonha enorme desta frase, dita com tanto orgulho por minha vó.
Sentia vergonha deste novo tão novo. Nada pode ficar intocável por 100 anos.
- Aposto que se estivesse na sua casa, já não sobraria mais nada: poeira e ferrugem forte.
- Sim, na minha casa há poeira e ferrugem forte - pensei, levantando queixo e olhar.
Conclui, portanto, que aquele era mesmo o lugar perfeito para as panelas. Minha casa.
Não falei com ninguém da família. As panelas azuis eram minhas por direito. Toda a poeira e ferrugem que eu possuía legitimavam a posse daqueles objetos.
- Basta de proteção. Chega de isolamento. Intocabilidade malígna.
Levei as panelas com segurança e direito. Ninguém perceberia a ausência porque ninguém se dava pela presença. Contei com a ajuda de um amigo e sua força de homem para abrir a gaveta pesada. Seria nosso segredo: eu levaria as panelas no fundo da minha mala e ninguém poderia impedir.
Depois da mudança, já no primeiro dia de estadia, as panelas tremeram de susto. Antes de ir para a prateleira, suportaram exuberante comida. Nunca haviam experimentado aquelas iguarias. Jantar magnifíco.
Aí, a prateleira - até um novo jantar.
Curiosamente, depois de 6 meses, as panelas começaram a adquirir uma nova textura e colorido. O azul vibrou, o metal se acendeu e, até hoje, eu teria muita felicidade das panelinhas se não fosse eu ter acordado.
E lembrado que minha avó nunca teve panelinhas azuis. Que minha avó nunca guardou este tipo de utensílio no gavetão. Que os cds continuariam no mesmo lugar da prateleira.
Ou talvez não.

18 de set. de 2009

ando muito completo de vazios

"Achava que a partir de ser inseto o homem poderia entender melhor a metafísica."

"Me procurei a vida inteira e não me achei - pelo que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam a ignorância."

"Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros."

"Tenho uma dor de concha extraviada.
Uma dor de pedaços que não voltam.
Eu sou muitas pessoas destroçadas."

"Lugar sem comportamento é o coração.
Ando em vias de ser compartilhado.
Ajeito as nuvens no olho."

Manoel de Barros. O livro das ignorãças.

19 de jun. de 2009

Diga que eu vou me casar

Quero levar minha noiva
Quero estarzinho com ela
numa casa de morar
com porta azul piquininha
pintada a lapis de cor

Quero sentir a quentura
do seu corpo de vaivém
Querzinho de ficar junto
quando a gente quer bem bem

[...]

Quero uma rede bordada
com ervas de espalhar cheiroso
e um tapetinho titinho
de penas de irapuru

Haverá muita festa
durante sete luas sete sóis

(Cobra Norato, Raul Bopp)

11 de jun. de 2009

Eu também sempre me pergunto...

Por que choram tanto as nuvens
e cada vez são mais alegres?

As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?

Quem gritou de alegria
ao nascer a cor azul?

Contaram o ouro que tem
o território do milho?

De que ri a melancia
quando a estão assassinando?

Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?

O 4 é 4 para todos?
São iguais todos os setes?

A quem posso perguntar
o que fazer neste mundo?

Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?

Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?

Onde vão as coisas dos sonhos?
Vão para os sonhos dos outros?

Pablo Neruda. Livro das perguntas (fragmentos).

10 de jun. de 2009

A ema e meu amor


Havia uma raposa e seus dentes terríveis. Um súcubo saído de uma estátua antiga que agora se arvorava contra mim.
Só eu poderia vencê-la, mas eram tantas ardilosidades... Tantos dentes maiores que a boca... Que eu me apavorei. E disse: basta! Com ferros na mão, tentei interromper a ferocidade de suas mandíbulas, não cheguei perto, apenas – distancia de um cabo – estoquei, estocadas firmes, até chegar em sua goela. Era tudo inútil e temporário, a qualquer momento ela poderia triturar aqueles ferros e sair ilesa, cheia de saliva. Muito medo eu sentia daquele que era todo fera. Quase não via raposa, e, curiosamente, não via o branco, mas o vermelho além dos dentes: língua, sangue, desejo.
Num passe de mágica, eu venci. Sumiram raposa, boca e ferros.
E de repente alguém disse: – Não respire. Eu ri.
– Não respire. Foi ríspida comigo a voz, e eu vi que era sério. Fiz uma concessão à vida: respiraria escondida. Ninguém veria a desobediência, nenhum animal feroz poderia farejar a minha presença naquela selva – pois estávamos em uma selva.
O perigo era dos instintos, qualquer movimento (fosse o da respiração) faria ruído e dispersaria cheiros, e os leões e hienas e tantos outros bichos desejavam demais a minha carne branca e rosa. Não respirei. Ou, antes, respirei apenas o que era permitido, um mínimo de ar. Proteção.
Vi que precisava muito menos de ar do que eu pensava, a vida não estava nos pulmões naquele momento das feras. Medi os palmos de meu diafragma com os olhos fechados.
Mas o perigo se matinha, sobretudo. Havia o perigo das aves. Sim das aves. Como a avestruz – na verdade era uma Ema.
– Cuidado com a Ema.
Olhei bem. Os animais solenes, enfileirados, num alto da planície – ah, era selva. E os animais não ameaçavam ninguém e até provocavam a minha simpatia.
– Cuidado com a ema.
Argumentei:
– Mas eu já venci a raposa. E fiquei sem respirar. O que uma ema pode me fazer?
Loucura... a ema parecia ser mesmo o animal mais perigoso de todos. Todos sabiam. Eu não.
Franzi a testa.
– Como?
– Você não está vendo. Basta vê-las, lá. Me disse o homem, porta-voz do pensamento da multidão que me acompanhava.
Agora, todos duvidavam da minha capacidade de guia. Eu venci a raposa, estava certo, mas desconhecia o perigo da ema. Eu era alvo de piedade e ridicularização. Quase podia escutar os risos, ririam se não fosse a floresta e sua ordem de silêncio.
– Veja por outro lado – me disseram repletos de dó.
Eu continuava com a testa franzida, teimando em não ver perigos.
– Veja no fundo. Veja as penas do rabo.
– Qual é o perigo? Fazia esforço desesperado para me lembrar das aulas de biologia (nenhum livro me avisava para ter cuidado com emas.) Ema... porque elas nos perseguiriam? Não temos nada para elas... nem contra elas...
Não aguentando de dó, como se conversasse com uma filha, o porta-voz explicou:
– Seu corpo é capaz de nos empurrar com mais força que um elefante.
Nenhum professor havia me dito isso. Mas me parecia verdade. O mundo animal é sempre tão espantoso – lembrei dos documentários da TV.
– A queda é mais destrutiva que o golpe de um leão.
Era tudo claro demais para ser mentira. Parecia que eu sempre soubera daquelas verdades ocultadas até ali, pois era tudo tão familiar.
– Estranho.
Acreditei e obedeci, passei a léguas da ema. E me afastei de todos e de suas revelações incômodas. Precisava seguir sozinha a partir dali. E respirar todo o ar pleno que me fosse destinado.
Preocupei-me mais uma vez com o perigo. A ignorância sobre os perigos do mundo.
– Que mundo é este que não nos informa sobre a que estamos sujeitos em um encontro com uma ema? Pior que um elefante... Pior que um leão... Devia ser uma obrigação do governo.
Disse com o peso das idiotices adultas.
Olhei para todos com expressão séria, concentrada. Que ficasse claro que eu sabia – agora sim – dos perigos da natureza. Que não rissem. Que não rissem nunca mais. Que não rissem nem escondido.
Afastei-me. A multidão me olhava, também séria. Era tudo sério demais. Tratava-se da sobrevivência. Mas eles balançavam a cabeça, vislumbraram (eu não) que eu ainda não havia entendido por inteiro aquela ema. Acreditei no perigo e me afastei por obediência às vozes, que me pareceram sábias, mas eu ainda não havia visto o outro ângulo. O outro lado que sempre há, em tudo. Só eu não via. Era preocupante.
Não havia compreendido o perigoso ame, que havia naquela ema. Pior que um leão. Mais forte que um elefante.

20 de mai. de 2009

Senhorita Rita anda descobrindo o que quer


Senhorita Rita tem 21 anos, e sabe que a soma desses dois números é 3, estágio em que se encontra, num total de 7. Chegar ao 7 ela sabe que é difícil, dependeria de uma vida que é além de sua existência.
Muita sabedoria, sabedoria que talvez não caiba numa linha de vida.
Já fazem 5 anos que Senhorita Rita tem 21. Amanhã comemoraremos seu aniversário, com bolo de cereja, cherry. Se bem que há sempre os maracujares e suas flores. E os manjares e seus brancos. Mas isso é amanhã. Só amanhã.
Não se sabe ainda a idade que Rita fará. Esperemos a lua da madrugada...
Mas ela anda descobrindo o que quer. E, pasmem, não se trata de massa, de nenhum gênero ou tamanho.
Mas ela quer.
E eu digo que é um carinho que seja feito como afago no ponto exato de suas têmporas, quando ali já é espaço dos cabelos. Na linha do limite. Sim, isso ela quer muito, pois parece que só essa exatidão do afago acalmará o que se passa no cérebro, às vezes nomeado como alma.
Ela quer um sumidouro ouro ouro ouro.
Ela quer uma risada branda, despertada do ponto mais abaixo do esôfago pelos dons da maravilha.
São seus tesouros.
Ela quer olhar plácido.
Ela quer um silêncio repleto.
Ela quer músculos descontraídos em seus ombros.
Percebem a transição?
Já estamos quase no quarto, falo dos estágios.
Sem consultar horóscopo nenhum ela sabe que sua cor é rosa-alaranjado. E faz questão de usar vestidos azuis, para a harmonia das cores.
E há mesmo harmonia das cores, pois algo resplandece em seus sonhos, e uma memória infinita lhe mostra que a sua memória também tem um cantinho neste espaço de infinitude.
Um cantinho no espaço da infinitude lhe faz feliz e amena. Não há mais grandes olhos cheios de um coração devorador de infinitos. É só um canto, espacinho dos olhos onde pode muito bem caber uma lágrima. Oh, que infinitos podem refletir uma lágrima. Dizem isso por aí, mas o reflexo não cabe nos olhos, é importante saber, ele sai, porque é luz.
Também alheia ao zodíaco, ela sabe da sua pedra turquesa, sorte de seu signo. E por isso construiu, sozinha, um sobrado de ametistas. Demorou 9 anos e ficou lindo, fui ver a obra ontem.
Senhorita Rita está feliz, hoje, vésperas de seu aniversário. Faz um ano que não sentia isso.
Além disso, tudo está indo tão bem e tranqüilo que depois de amanhã ela terá um encontro amoroso - mas não se sabe, ainda, se há amor.
Ela sabe muito bem que se houver amor, o amado lhe entregará, em um papelzinho, três gramas de ouro. E se houver amor, ela deverá soprar o pó de brilhos para que eles alcancem as estrelas.
Se não houver amor, esta senhorita se prepara para esperar mais um ano, ou dezoito.
Não tenham pena. Não é o caso: Não se trata de uma espera de esposas marítimas, helenas, penélopes. Enquanto espera, há as luzes repletas de cidade, seus néons e abismo. Distrações. Mas é espera, irmã dos bordados longos e dos cabelos de crescimento constante.
É isso: hoje, no dia de sua transformação, ela espera pelo momento seguinte como quem poderia esperar os séculos. Feliz feliz com seus vazios lindos.
Quanto a mim, ao terminar essa escrita, percebo com muita clareza que há pedras de-cor-rosa em minha mão. São falsas e de plástico, bem como Rita, mas estão incrustadas.
Seriam glóbulos de sangue dissolvidos na brancura que é Rita para mim?
Sabe-se lá.

4 de mai. de 2009

Seção dos amores imaginários ou concretos demais

Nos devaneios noturnos da senhorita rita, surgem muitos – muitos – seres de matéria de nuvem, translúcidos, transparentes, mas que possuem mãos robustas, às vezes peludas. Alguns têm barba por fazer, outros usam roupas passadas pela mãe, alguns são bem sujos. São invisíveis e encorpados. Senhorita rita permite que tomem seu corpo e ruborizem sua pele. Sinto febre. Por ela. São mais pesadelos. Ela fica calada quando chegam. Aceita sua presença. Agora vou transcrever as cartas que rita me mandou, dizendo o que pensa de cada um deles. Caso algum amante tenha acesso a essas cartas (destinadas a eles!), é permitido que revidem. Serei sincera em minha transcrição. Ela enviou as cartas para mim porque não chegou a pegar o endereço de nenhum desses amantes – são os tempos modernos.
Aí vão as cartas:


Querido Paul.

Você pegou na minha perna e ficou com olhar parado, ao longe. Como se nada tivesse acontecido. Suspendeu minha saia. Até o joelho. Enquanto a conversa ia chata, sobre a guerra. Não gostei. Tchau. Senhorita Rita.



Querido, querido, querido.

Adoro o seu rock’n’roll. Você me pega na cintura num swing bem heavy... e é tão sweet quando me abraça depois de tudo. Sua roupa preta me lembra demais as noites em que olhamos para a lua, deitados em sua cama – aquela que combina tanto comigo, sabe? O cobertor vermelho, de pelúcia felpuda, sobre o lençol velho (o mesmo que já recebeu as incontáveis mulheres que você fingiu amar – com o consentimento e aprovação de todas elas) não sai de minha memória. Eu te amo por causa de seu cobertor vermelho. Lindo, carinhoso, confiante, talentoso, educado, charmoso: um homem que deve ser deixado em paz. Tenho que me livrar bem rápido de você. E eu olharei para a frente, prometo. Mas antes eu queria, mais uma vez, a profundidade de seus beijos. Só mais uma vez. E depois fugirei de sua lista de carolzinhas, alicezinhas, natalinhas... Porque eu me recuso a fazer parte dessa listinha amorosa que você nem se dá ao trabalho de consultar – pois há sempre carne fresca no pedaço. Como eu. Então, vamos ao tal do beijo. Passo aí na sua casa? Ou você vem pra minha? Depois tocamos em frente. Beijos.



Senhor Barbichas Macias.

O senhor nem imagina a sensação que foi me despedir de você. Você não precisava me abraçar, nem somos íntimos nem nada, mas você me abraçou e eu pude sentir sua barba em minha pele. Não devias ter feito isso, mas agora que fez vou confessar minha ignorância: Não sabia que barba ficava tão macia, assim grande. Achei bonito. Gostaria muito de te abraçar de novo, por um tempo um pouco maior. Seria possível? Me ligue.



Max,

nosso encontro foi formidável, você me abraçou forte, sem que eu tivesse tempo para dizer não. Gostei de ficar calada, sem reação. Assim deve ser da próxima vez (não se esqueça). Obrigada por me deixar sem voz.



Japonês loiro,

tenho que te confessar: o seu maior atributo é o fato de que em breve irás para o Japão. Me desculpe a felicidade por saber-te tão longe em tão breve. É muito bom saber que eu talvez não te veja nunca mais, é que eu gostei demais de tocar sua pele áspera e sei que deve ser assim para ser bom: um toque único e efêmero. Outro dia saí andando por perto de onde você mora para, quem sabe, te encontrar casualmente, antes que você se vá para o outro lado do mundo. Você parece não ter idéias para conversar comigo, pode conversar, bobo! Minha bela boca não morde como seu desejo pensa. Vou te ajudar: deixarei o carro em casa para você me oferecer uma carona. Não se esqueça de oferecer, ouviu? Com você, eu gostaria de sentir lábios fortes em meu rosto. Beijos firmes. E uma mão firme capaz de me enlaçar até à cama. OBS: Eu também já intui sua delicadeza, não se preocupe.



Venâncio.

Não posso te chamar de querido. Quero te dizer que cansei de ti. Você é muito preconceituoso e eu tive medo de que saísse espalhando por aí os meus sonhos. Não apareça de noite.



Oi, querido.

Você me olha tanto... e tem um ar bastante seguro de si. Por que você me olha? Esperas algum código de meu olhar? Eu sinto muito, mas não sei dar bola, já vou lhe avisando. Deixo toda a responsabilidade para você que nasceu homem. Toda. Essa é a minha forma de dizer que estou interessada. Entendeu? Se você perguntar se eu quero, direi que não. Se você me convidar para sair, direi que não. O caso exige atitude drástica. Se vire, é sua função de homem, eu não tenho dó. Além disso, não poderíamos nunca sair, convide-me para ir ao cinema e teremos um problema, pois jamais chegaremos a um consenso sobre algum filme, tenho certeza disso. Faz parte de nossas naturezas sermos opostos. Mesmo assim ficarei esperando sua atitude. Confio demais em você apesar de tudo, sei, por exemplo que você não me mataria, mesmo com toda a sua força brutamonte. Poderíamos ficar sozinhos, eu acho. Você me entenderia mal? Acho que sim. Devo dizer que nunca fiz isso, o que é mentira, pois há séculos venho planejando a ousadia. O fato é que fiquei totalmente sem ação quando você me segurou pelo braço, sem delicadeza nenhuma (como eu gosto) para passar por onde eu estava. E nem olhou para trás. Fiquei estupefata. E seduzida. Mas não sei fazer mais nada além disso. Muitos beijos, Tenho vergonha de me identificar.



Áureo.

Adoro sua tecnologia. Tão sofisticada. Adoro quando você fala palavras estrangeiras: shitake, curry, new york... tão ridículo e lindo que eu suspiro: ui, ui! Além disso, seu cheirinho de sabão em pó me lembra roupa lavada por mãe, é uma delícia. Puro confort. Sua feminilidade me assusta. É bonito. É agradável estar comigo mesmo em você. E eu, que sempre gostei de amor aos encontrões, de mãos que tomam 1,70m de mim com um dedo, vou ter que mudar de tática. Você está saindo caro. Sua fragilidade excitante está fazendo de mim mais macho. Vou ter que aprender, já comecei as aulas de rispidez, de objetividade e de não-devaneio. Vou te levar para a cama e falar: "já". Daí, descanso. Lembra que eu te disse que eras o primeiro? Mentira. Tenho muitos amantes, não cabem em meus dedos. Guardo lembrancinhas de cada um deles. De você, eu quero duas gotas de sangue embrulhadas em papel alvo. Sei que você fará um embrulho bonito, você é dos laços. Ah, quero um solo de sax também. Envie tudo para minha casa, você tem o endereço.



Cícero, Cícero, Cícero.

Você é dos meus... pena que é cego. Você não viu que eu olhava seus traços delineados pela camisa? Era a resposta ao que me perguntastes com os olhos. Perguntastes com os olhos, respondi com os olhos, mas você virou as costas na hora, burro! Agora não há mais jeito, você vai ter que passar pelo constrangimento de dizer, com todas as letras e sons, que me deseja e que quer me levar para uma casinha confortável nas montanhas, longe da civilização e perto do romantismo. Comece assim: “eu gosto de você porque você é linda”. E eu responderei: “tá bom, eu concordo. Pode me levar.” Vai ser ótimo porque você é adulto e eu estou fingindo que sou também. Aí a gente brinca e vai embora depois.



Amantes.

Eu facilito tanto a vida de vocês, dou dicas para me conquistar. Mereço um pouco mais de consideração. Estou estipulando: quero assistir a um filme no vídeo pelo menos uma vez por semana (filme com abraço), quero que façam suas especialidades culinárias para mim (uma vez basta), quero viajar para um lugar frio e outro quente (ao longo do ano). Mandem-me também uma mensagem erótica por dia. Pode ser por carta ou computador. Ou então coloquem debaixo da porta. Combinado então. Beijos.



João, brando João,

penso em fazer uma maldade contigo. Fique longe de mim. Vou te seduzir até te arrasar. Sou um perigo. Você tem estômago para isso? Aprendeste como curar alto amor na faculdade de medicina? Acho que não. Tenho pena e gozo com isso, você tão experiente... está prestes a ser enganado por uma menininha... eu não devia te avisar, você merece minha ironia porque é bobo demais. Terás apenas um momento de alívio: deixarei que toques belas pernas brancas. Fuja enquanto é tempo... Até mais, se não fores tão bobo. Até nunca, se fores sensato.



Modelito.

Eu não quero nada contigo! Foi só a lua e a cachaça que me fizeram olhar para ti. Você é lindo e certo. E isso basta para me enojar. Quem olharia para você? Apenas moças de unhas bem feitas e cabelo de salão. Eu recuso. Não me esqueça. Sofra um pouco para amenizar sua beleza correta. Vai ser bom para você. Pra mim, foi péssimo. (ninguém mandou você vir aqui, eu disse que seria cruel. Estou em meus lençóis. Procure os seus).



Hello, Jonny.

Te vi no vídeo. Distante, distante, tão hollywood. Tão estrela quanto suor. Você ia gostar de me conhecer, essa é a única hipótese para ficarmos juntos, você gostar do que ainda não tem. Você tem mulheres, mas nenhuma delas tão absolutamente cotidiana como eu. O cotidiano te atrai? Responda que sim, que sim, que sim... o problema é que eu não falo inglês. Ficarmos juntos pode ser por um dia. Aí eu vou ficar pensando que você não vai me esquecer nunca mais... enquanto você me esquece rápido, rápido. “Mas você não me esquecerá”, teimarei eu. Ai que mentira, ai que boa. Mas se quiser um pãozinho com manteiga embrulhado no papel toalha, eu te mando com carinho. Tenho certeza de que os tapete vermelhos sangram um pouco sua paz.


Honey,

achei seu sabor amargo. Digamos que você é como um chá de boldo ou carqueja, só que sem os efeitos benéficos de saúde. Só o sabor ruim. Ruim. Nada bom. Será que você não se perguntou por que eu não fui de carro ao nosso encontro? Por bondade. Pois sei que, para homens como você, o carro é um atributo. No caso, é o seu único atributo. Pena que este não me interessa. Este foi seu erro, você me confundiu com alguém que você conhecia – talvez dos lugarinhos bem frequentados por você e por toda a “tradicional família mineira”. Sua falta de carinho, sua masculinidadezinha previsível (demonstrada apenas – eu grifo “o apenas” – em jogos de tv e barba malfeita) é cômica. Eu rio. Até chorar. Senti-me diante de um estereótipo desses que a TV fabrica – eu nunca tinha visto um ao vivo... foi até emocionante, eu diria. Entristeço-me pelas belas-bobas, de esmalte lilás e pele plena, que ainda aceitarão a cafajestagem rude, fingidamente carinhosa, em jantares pagos com cartão visa. E por você, que se sentirá exultante com tão pouco. Enraiveço-me porque nunca fiz aulas de boxe e não tenho força nem técnica suficientes para lhe dar alguns socos estratégicos – apenas como paga pelas frases idiotas que ouvi enquanto teimava em encontrar algo de interessante em ti e como forma de sacolejar algo de vivo que talvez teime em existir em alguma camada mais profunda de você. Falei em soco, mas não te quero mal. Até te desejo boa sorte! E felicidades, se possível. Desejo de todo o coração que você se apaixone e sofra, porque “só é verdadeiramente vivo quem já sofreu”. Despeço-me com esta carta para que não penses que sou má. Pois minhas intenções para contigo eram as melhores... Sinceras não-saudades. E um beijo (para não dizeres que nunca te agarrei!).

De passagem...

– você quer dirigir?
– não, prefiro ser passageira.

Isso é lá com Santo Antônio?

Frases retiradas de revistas femininas das décadas de 50 e 60:
"Não se deve irritar o homem com ciúmes e dúvidas. (Jornal das Moças,1957)"
"Se desconfiar da infidelidade do marido, a esposa deve redobrar seu carinho e provas de afeto, sem questioná-lo". (Revista Claudia, 1962)
"A desordem em um banheiro desperta no marido a vontade de ir tomar banho fora de casa." (Jornal das Moças, 1965)
"A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas". (Jornal das Moças, 1959)
"A mulher deve estar ciente que dificilmente um homem pode perdoar uma mulher por não ter resistido às experiências pré-núpciais, mostrando que era perfeita e única, exatamente como ele a idealizara". (Revista Claudia,1962)
"Mesmo que um homem consiga divertir-se com sua namorada ou noiva, na verdade ele não irá gostar de ver que ela cedeu." (Revista Querida,1954)
"O noivado longo é um perigo, mas nunca sugira o matrimônio. ELE é quem decide - sempre". (Revista Querida, 1953)
"Sempre que o homem sair com os amigos e voltar tarde da noite, espere-o linda, cheirosa e dócil" (Jornal das Moças, 1958)
"É fundamental manter sempre a aparência impecável diante do marido".(Jornal das Moças, 1957)

28 de abr. de 2009

o pulso ainda pulsa

Maximiliano.
É verdade que não posso esconder sua identidade nesse maximiliano. E olha que tentei alcançar o mínimo. É-me difícil achar entrelinhas, pelo menos assim, no meio de seu público. Logo eu que gosto tanto de sutilezas... Peço desculpas pelo que for grosseiro demais, mas sei que achará tudo uma delicadeza só.
De você, só conheço a superfície, pois você já se acostumou à pele dos papéis fotográficos.
Te conheci no cinema, numa quinta já sexta, madrugada em que não havia mais filmes, e logo obtive de ti um olhar, muitos olhares, enquanto te via no meio de vozes - mais sussuros - de elogios. Você se apresentou a mim, e eu continuei sem conhecê-lo. Esbarrei meu corpo no seu, porque havia multidão e porque eu usava meias vermelhas, o que me garantia uma certa ousadia, embora emprestada.
Você pegou na minha mão, eu retive a sua, e foi tudo muito efêmero. Aí acabou meu estoque de ousadia (tenho gastado-a muito por aí, um desperdício).
Desde então eu desejei muito que o efêmero durasse ao menos dois dias, mas efêmero que se preze ignora os bilhões de anos de vida das estrelas.
Penso profundo no meu punho ali... os pulos de minha dança... as pulseiras... as pinturas... seu punho... nossos pulsos... por quantos segundos bate um coração em uma noite? É tudo mesmo muito volátil.
O seu toque... haveria outras texturas? Quais são as profundidades possíveis?
Bão... encurtando a prosa...
Ofereço uma brevidade - tradicional quitude mineiro. É isso.
E peço às montanhas do meu horizonte que não barrem a minha correspondência contigo, que pertence a outros mares, recifes, corais.
Um beijo, tão pulsante quanto você suportar.

9 de abr. de 2009

Amantes invisíveis - Carta INÉDITA

Transcrevo abaixo mais uma carta da senhorita rita. Ela acabou de escrever e pediu que eu a colocasse aqui. Ela não entende de computadores (a verdade é que a informática não combina com suas unhas de esmalte fresquíssimo, sabor melancia).
Rodrigo, digo, Diguinho.
Sinto tanta falta de seu rosto anguloso... É impressionante como você fica bonito no ângulo do beijo - confesso, eu abri os olhos. E depois tive que abrir de novo, para reparar bem sua pele, o vermelho dos lábios e os cílios, tudo bem de perto. Tão bom.
Enquanto isso, a sua mão...
Ai, que eu estremeço. Sua mão. Sua mão é... bonita demais. E é limpa, dá até gosto.
A sua mão tocou os meus ombros com a força suave de um homem que gosta de pele. Ai que mão bonita, meu Deus. Eu poderia ficar olhando para ela por três horas e depois combiná-la, mais uma vez, com a maçã de meu rosto, em perfeito encaixe.
Tão bom. Eu queria isso.
Sei tão pouco de ti, não é mesmo? Só posso dizer que elas, as mãos, desenharam sobre a superfície de minha pele algo muito agradável (tanto que eu te mandei um arrepio, em agradecimento, lembra?). E foi só.
Viu como eu sei me comportar? Nem te convidei para uma xícara de café...
Bem... Vamos ao que interessa.
Esse prêambulo é para dizer que você tem belezas, mas o que eu queria mesmo era acabar com a sua raça. Sim. Você ouviu direito.
E aqui começa a verdadeira carta.
Eu sei que você está enganando aquela moça, e isso eu não posso suportar. Um homem com suas mãos não devia fazer algo assim... é sujeira. Deixe esse tipo de atitude para os das mãos sebentas. Você não.
Naquela tarde tropical, quando te vi com Ana, pude palpar o tanto que ela gosta de você. E, mesmo assim, você andava me beijando pelas vésperas... Você não tem vergonha? As mulheres têm muito medo de assustar os homens com suas poeticidades e se calam, depois sofrem, também caladas, quando escutam "Ó, você confundiu as coisas". Pois eu te digo: não há confusão nenhuma... Ou não há beijos, carinhos, gentilezas, intimidade crescente?
Resolva isso, por favor. Só assim eu poderei voltar a te amar: namore a Ana e mostre que você tem decência. Poderemos nos casar quando este seu relacionamento acabar, enquanto isso vou me divertindo por aí. Sou paciente.
Confio em sua nobreza de caráter. Minha intuição não pode estar errada.
E boa sorte, meu amor!!!

7 de abr. de 2009

Entre mim e você: a pele

Didática do toque

Toco o envelope com mãos que poderiam tocar seu ventre.
Toco meus lábios num automatismo atônito, ausência de beijo.
Abro seu texto com mãos que poderiam abrir um fecho eclaire.
Abro-me como um livro. Psss... Escute a dobradiça. Abro-me como uma coisa antiga: caixinha amarelada, guardada em outra caixa amarelada, de onde transbordam coisas lindas e inúteis. Abro-te meu peito para veres as gotinhas de sangue. Espero primeiro que abras o fecho do sutiã.
A 5 mm de sua pele, antes de pêlos, roço minha face rosada de pudor. Você não me vê. E eu não chego perto, porque já estou perto demais. Quantos metros preciso recuar para que veja? De que ângulo precisa?
Sob um foco de luz, fica muito branco. Está ao alcance das mãos. Já não há vestes.
Olho bem e parece que já não há corpo. A luz cega de clara. Mantenho-me inerte por dois séculos e um segundo. Permaneço minha coxa próxima a ti, imóvel. Evito respirar.
E adentro, com mãos graves, masculinas, seu peito nu. Tiro, de lá, nenhum coração, mas o vejo pulsante.
Cruel e feminina, penso nos tambores e rituais que poderia fazer com sua pele.
Penso em pêlos.
Peço pelo menos um toque em seu tecido: sempre algodão, sempre epitelial.
Começo dedilhando suave sobre a toalha da mesa e termino encorpando fortes dedos em seus cabelos, enchendo a mão de água límpida, envolvendo tudo com meus grandes braços repletos de ombros e sonhos. Abóbada, concha, casulo.
Tenho um poço em mim cujo acesso não há. Contento-me com a gota, experimento a lágrima. Veja: o fiozinho... Tudo eu tenho e dou. A lágrima, a gota, o fiozinho... mas há o que não vaza.
Pele, pele, pele, pele, eu quero sua alma! (como quem pede ávido um prato de carne, como quem suga a saliva excedente na própria boca).
É-me difícil esfriar, estando perto de sua temperatura.