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3 de jul. de 2010

o namorado dos meus sonhos

Meu namorado era um absurdo. E eu gastei tantos minutos quanto cabe num século para começar a entender por que a vida havia colocado no meu percurso algo de tão equivocado.
Eu poderia namorar um homem loiro. Isto era aceitável.
Eu poderia namorar um homem baixo. Isto era admissível.
Eu até poderia conviver com um homem que usasse blazer comprado nos anos 80. O amor não olha isso.
Mas eu não suportava a voz do namorado que me cabia. E isto eu não aceitava.
E, além da voz irritante, ele era ainda loiro, baixo e usava blazer anos 80.
Toda vez que ele dizia algo, eu balançava as mãos num ímpeto de tapar os ouvidos. Só não realizava o ato por etiqueta social ("- Vejam: ela não escuta o namorado!", diriam).
O pior é que eu nunca o havia aceitado como namorado. Mas ele era o meu namorado. Todos sabiam, só eu não entendia como aquilo ficou assim tão acertado e definitivo.
Já que não tinha jeito, comecei a gostar dele. Primeiro porque lembrei que ele vendia pão, era dono de uma padaria e sempre me propunha comer pães quentes. Gostei um pouco mais porque ele me mostrou as passagens de uma grande viagem que faríamos. E comecei a pensar em efetivar o namoro que todos já sabiam existente quando um amigo dele, horroroso ("Por que meu namorado tem amigos tão horrorosos?", pensava), me cumprimentou com o maior respeito do mundo. E pensei então, quase conclusiva: o que é uma voz irritante em vista de tanto respeito e pão quente? Seria melhor viajarmos.
Com medo, porque não se fica sem ele, vi que um dos caminhos era dizer sim. Em outras palavras, abandonar o semblante desconfiado quando ele me chamasse de "meu amor". Assumir uma postura inequívoca perante ao que parecia tão equivocado: você, homem loiro de voz irritante, é sim meu namorado. Nos amaremos com farinha e calor de forno, porque, sim, eu quero.
Achei, no final das contas, que assim é o amor: essa voz insistentemente aguda que não nos deixa parar onde já nos julgamos tão bons.

3 de nov. de 2009

foi só isso

Houve um instante, breve instante, em que eu pensei: "Então é isso. Não há mais nada". E o destino cruel (pude ouvir seu riso maligno e mesmo agora meus olhos se apertam de ódio ao lembrar) cochichou: "Olhe para seu punho". Eu olhei, porque não havia outra coisa a fazer senão olhar. Não se desobedece destino, ainda mais quando basta seu sussurro para ocupar todo o ar ao redor.
Aí eu vi... Vi aquilo por que esperava há muito - tempo que confunde relógios: um pedacinho de tecido se soltava de meu punho, uma linha tão puída que era quase mesmo a pele. Seria pele se eu olhasse de novo, mas não deu tempo, porque eu vi a linha se soltando e se dissolvendo no ar. Por um instante, linha, pele e ar eram uma coisa só. E eu disse não. Não, mil vezes não. "Eu ainda não estou preparada". E uma voz (acho que era mesmo o destino. Ou Deus. Ou algo equivalente) disse sim.
E eu olhei ao lado e havia um moço se aproximando numa câmera lenta, em boca de beijo, tipo um bico. Eu disse: "Não. Mil vezes não. Eu não quero este."
Os olhos arregalados, um medão. Desejo que a linha se amarrasse novamente no meu punho, mas era mesmo um trapinho, só dos lixos. Quase gritei, com o corpo todo tremendo, o som entre os dentes: "Amarrrra!". Se eu gritasse seria um daqueles gritos de criança que quer o doce da vitrina a todo custo e acredita que a guloseima atravessará o vidro com a força do seu grito.

Mas sufoquei grito e tremor, porque me achei já grandinha e tive vergonha, e daí que o que contive teve a dimensão de uma aventura.
E o beijo veio porque o moço (repugnante - devo dizer - loiro e plácido) já estava perto demais. E a voz, que ainda ria de maldade, me mandou calar, advinhando a vontade do grito (é que meus olhos me traíam).
Eu queria ser mais forte que o laço que se quebrava, eu queria ser soberana a tudo aquilo que me acontecia sem minha permissão, e, sobretudo, eu queria dizer um palavrão bem impróprio para aquele tal destino ou Deus ou coisa equivalente.
Aí eu pensei em chorar, porque era o mais óbvio. Mas não achei justo. Porque não dava mais para voltar a esse ponto.
Então aceitei o beijo. O que me calou bem fundo e me engoliu as lágrimas.
E o destino riu, riu. Me abandonando pequena, ocupando apenas o meu lugar.

22 de out. de 2009

as panelas azuis da minha avó

Primeiro eu escolhi levar para mim um conjunto de panelas azuis. Era azul clarinho. Minha avó havia morrido há três anos e pela primeira vez eu visitava sua antiga casa - e não mais sua ausência.
Então eu lembrei subitamente daquelas panelinhas que até pareciam de brinquedo. A única diferença é que eu estava de adulto naquele momento.
As panelas: o azul e as florzinhas. Um leve enferrujado. Ferrugem leve. Panelas de ferro.
Ferro pintado de azul. Eta, lindeza!
- Elas estão como novas, há mais de 100 anos - este era o orgulho de minha avó: mostrá-las junto a esta frase. Ritual repetido por todos os anos de minha infância, em julhos de jabuticaba temporona ou no dezembro das mangueiras.
Para levá-las, eu tinha uma condição minha: desocupar alguma prateleira da minha casa empilhada. Pensei na estante da sala.
- Mas panela enfeita é cozinha.
Na sala. Tiraria os cds e colocaria em alguma caixa. No lugar, as panelas se enfileirariam, em ordem crescente (mas isto, como se sabe, é questão de ângulo). O ambiente, então mais azul, engrandeceria os olhos. Plano perfeito. Decidido.
No meio das panelas, uma mantegueira. De ferro azul. Clarinho. As mesmas florzinhas vermelhas. Coisa antiga e preciosa, escondida no gavetão dos tesouros.
- Mas elas estão como novas há quase 100 anos.
Sempre tive uma vergonha enorme desta frase, dita com tanto orgulho por minha vó.
Sentia vergonha deste novo tão novo. Nada pode ficar intocável por 100 anos.
- Aposto que se estivesse na sua casa, já não sobraria mais nada: poeira e ferrugem forte.
- Sim, na minha casa há poeira e ferrugem forte - pensei, levantando queixo e olhar.
Conclui, portanto, que aquele era mesmo o lugar perfeito para as panelas. Minha casa.
Não falei com ninguém da família. As panelas azuis eram minhas por direito. Toda a poeira e ferrugem que eu possuía legitimavam a posse daqueles objetos.
- Basta de proteção. Chega de isolamento. Intocabilidade malígna.
Levei as panelas com segurança e direito. Ninguém perceberia a ausência porque ninguém se dava pela presença. Contei com a ajuda de um amigo e sua força de homem para abrir a gaveta pesada. Seria nosso segredo: eu levaria as panelas no fundo da minha mala e ninguém poderia impedir.
Depois da mudança, já no primeiro dia de estadia, as panelas tremeram de susto. Antes de ir para a prateleira, suportaram exuberante comida. Nunca haviam experimentado aquelas iguarias. Jantar magnifíco.
Aí, a prateleira - até um novo jantar.
Curiosamente, depois de 6 meses, as panelas começaram a adquirir uma nova textura e colorido. O azul vibrou, o metal se acendeu e, até hoje, eu teria muita felicidade das panelinhas se não fosse eu ter acordado.
E lembrado que minha avó nunca teve panelinhas azuis. Que minha avó nunca guardou este tipo de utensílio no gavetão. Que os cds continuariam no mesmo lugar da prateleira.
Ou talvez não.

10 de jun. de 2009

A ema e meu amor


Havia uma raposa e seus dentes terríveis. Um súcubo saído de uma estátua antiga que agora se arvorava contra mim.
Só eu poderia vencê-la, mas eram tantas ardilosidades... Tantos dentes maiores que a boca... Que eu me apavorei. E disse: basta! Com ferros na mão, tentei interromper a ferocidade de suas mandíbulas, não cheguei perto, apenas – distancia de um cabo – estoquei, estocadas firmes, até chegar em sua goela. Era tudo inútil e temporário, a qualquer momento ela poderia triturar aqueles ferros e sair ilesa, cheia de saliva. Muito medo eu sentia daquele que era todo fera. Quase não via raposa, e, curiosamente, não via o branco, mas o vermelho além dos dentes: língua, sangue, desejo.
Num passe de mágica, eu venci. Sumiram raposa, boca e ferros.
E de repente alguém disse: – Não respire. Eu ri.
– Não respire. Foi ríspida comigo a voz, e eu vi que era sério. Fiz uma concessão à vida: respiraria escondida. Ninguém veria a desobediência, nenhum animal feroz poderia farejar a minha presença naquela selva – pois estávamos em uma selva.
O perigo era dos instintos, qualquer movimento (fosse o da respiração) faria ruído e dispersaria cheiros, e os leões e hienas e tantos outros bichos desejavam demais a minha carne branca e rosa. Não respirei. Ou, antes, respirei apenas o que era permitido, um mínimo de ar. Proteção.
Vi que precisava muito menos de ar do que eu pensava, a vida não estava nos pulmões naquele momento das feras. Medi os palmos de meu diafragma com os olhos fechados.
Mas o perigo se matinha, sobretudo. Havia o perigo das aves. Sim das aves. Como a avestruz – na verdade era uma Ema.
– Cuidado com a Ema.
Olhei bem. Os animais solenes, enfileirados, num alto da planície – ah, era selva. E os animais não ameaçavam ninguém e até provocavam a minha simpatia.
– Cuidado com a ema.
Argumentei:
– Mas eu já venci a raposa. E fiquei sem respirar. O que uma ema pode me fazer?
Loucura... a ema parecia ser mesmo o animal mais perigoso de todos. Todos sabiam. Eu não.
Franzi a testa.
– Como?
– Você não está vendo. Basta vê-las, lá. Me disse o homem, porta-voz do pensamento da multidão que me acompanhava.
Agora, todos duvidavam da minha capacidade de guia. Eu venci a raposa, estava certo, mas desconhecia o perigo da ema. Eu era alvo de piedade e ridicularização. Quase podia escutar os risos, ririam se não fosse a floresta e sua ordem de silêncio.
– Veja por outro lado – me disseram repletos de dó.
Eu continuava com a testa franzida, teimando em não ver perigos.
– Veja no fundo. Veja as penas do rabo.
– Qual é o perigo? Fazia esforço desesperado para me lembrar das aulas de biologia (nenhum livro me avisava para ter cuidado com emas.) Ema... porque elas nos perseguiriam? Não temos nada para elas... nem contra elas...
Não aguentando de dó, como se conversasse com uma filha, o porta-voz explicou:
– Seu corpo é capaz de nos empurrar com mais força que um elefante.
Nenhum professor havia me dito isso. Mas me parecia verdade. O mundo animal é sempre tão espantoso – lembrei dos documentários da TV.
– A queda é mais destrutiva que o golpe de um leão.
Era tudo claro demais para ser mentira. Parecia que eu sempre soubera daquelas verdades ocultadas até ali, pois era tudo tão familiar.
– Estranho.
Acreditei e obedeci, passei a léguas da ema. E me afastei de todos e de suas revelações incômodas. Precisava seguir sozinha a partir dali. E respirar todo o ar pleno que me fosse destinado.
Preocupei-me mais uma vez com o perigo. A ignorância sobre os perigos do mundo.
– Que mundo é este que não nos informa sobre a que estamos sujeitos em um encontro com uma ema? Pior que um elefante... Pior que um leão... Devia ser uma obrigação do governo.
Disse com o peso das idiotices adultas.
Olhei para todos com expressão séria, concentrada. Que ficasse claro que eu sabia – agora sim – dos perigos da natureza. Que não rissem. Que não rissem nunca mais. Que não rissem nem escondido.
Afastei-me. A multidão me olhava, também séria. Era tudo sério demais. Tratava-se da sobrevivência. Mas eles balançavam a cabeça, vislumbraram (eu não) que eu ainda não havia entendido por inteiro aquela ema. Acreditei no perigo e me afastei por obediência às vozes, que me pareceram sábias, mas eu ainda não havia visto o outro ângulo. O outro lado que sempre há, em tudo. Só eu não via. Era preocupante.
Não havia compreendido o perigoso ame, que havia naquela ema. Pior que um leão. Mais forte que um elefante.