4 de jul. de 2011

embaixadores do mundo mudo, Francis Ponge

[a função da poesia é] é alimentar o espírito do homem, fazendo-o desembocar no cosmo. Basta rebaixar nossa pretensão de dominar a natureza e elevar nossa pretensão de fazer fisicamente parte dela para que a reconciliação tenha lugar. Quando o homem se orgulhar de ser não somente o lugar onde se elaboram as ideias e os sentimentos, mas também o nó em que eles se destroem e confundem, então estará pronto para ser salvo. A esperança está portanto numa poesia pela qual o mundo invada a tal ponto o espírito do homem que ele venha a perder a palavra, depois reinvente um jargão. Os poetas não têm de modo algum de cuidar das relações humanas, mas de ir de cabeça até o fundo do poço. A sociedade, aliás, se encarrega muito bem de empurrá-los, e o amor das coisas de mantê-los ali; eles são os embaixadores do mundo mudo. Enquanto tais, balbuciam, murmuram, afundam na noite do logos – até que, enfim, se encontrem no nível das RAÍZES, onde se confundem as coisas e as formulações.
É por isso que, seja qual for a que trazemos em nós, a poesia tem muito mais importância do que qualquer outra arte, qualquer outra ciência. É por isso também que a verdadeira poesia não tem nada a ver com o que se encontra hoje nas coleções poéticas. Ela é o que não se dá por poesia. Ela está nos rascunhos sobre os quais se aferram os maníacos desse mergulho. É a beleza do mundo, enfim, sem dúvida, que nos faz a vida tão difícil. Difícil? Ela é o impossível que dura.

12 de mar. de 2011

tabela periódica

200ml de óleo ou 200ml de licor ocupam uma xícara de mesmo tamanho. O peso é igual?
Estive por toda a manhã com esta dúvida matemática. E lembrei-me de minhas aulas de densidade. Uma vez eu fiz um trabalho escolar sobre a prata, e decorei todos os valores relativos a este metal. É mesmo um metal, não é? Não estou enganada, estou? É que na escola a gente aprende que o que sempre se soube como uma verdade não é bem assim aquela verdade. Por exemplo, o tomate não é um legume, aprendi na escola. E eu continuo comendo-o misturado a outros legumes - ou o que penso serem legumes.
Considerei que desaprender o que sempre se soube é muito bom, porque exercita nossa capacidade de levar susto. A todo o tempo levamos susto, decobrindo que o que se pensa ser, não é. E o que se pensa não ser, é. Não sei se a gente usa estas vírgulas aí que eu usei, mas as palavras "ser", "é", não" fizeram sentenças mesmo estranhas e confusas, e as vírgulas nos dão aquela sensação boa de que organizamos alguma coisa. Conheço pessoas que saem distribuindo vírgulas aleatoriamente por todo o texto, o que deve ser um indício de uma vida tão caótica que a pessoa se agarra a cada perninha de vírgula, na tentativa desesperada de organização. O que acaba por fazer um caos ainda mais completo. Que é a nossa condição clara - quer dizer escura.
Agora devo dizer que a vida é muito boa, pois não quero dar a impressão de ser uma pessoa caliginosa. Amei esta palavra: significa "tenebroso", mas parece que vem de "calo". E quem passa pelas trevas não fica cheio de calos, duros e insensíveis? Quanto a mim, na mesma proporção da doçura, ando cultivando durezas, mas não jogo pedras.
Hoje em dia, choro poucas xícaras por ano, menos - bem menos - de 200ml de lágrimas, o que salva minha alma.
E, das poucas coisas que sei, poço dizer que a densidade da prata é de 10490 kg/m3.

28 de fev. de 2011

apenas

Toda vez que digo, cheia de orgulho, "eu tenho razão", eu me sinto mó He-man, como se estivesse dizendo "eu tenho a força", daí me dá uma tristeza, porque eu queria mesmo me orgulhar de dizer "eu tenho a emoção", mas isto soaria como: "pelos poderes de Greyskull, eu sou só um ser humano". Ou, como diria aquela música, "eu sou apenas uma mulheeeeer".
Hum... vou já pesquisar mais sobre a She-ra.

impressões que tive em um museu

seda também pode envolver chumbo,

e a música pode te deixar muito triste

o que é bom



vermelho parece a minha casa

e quando pisamos em vidro podemos dizer:

que cerca é essa que me prende tanto e me priva

de dizer, de fazer, de só ir?



por dentro das paredes há mais do que só cimento argamassa e gotas de suor

mais muito mais:

toda a história pregressa da humanidade, desde a formação da carne

e toda vidência de futuro, nas ranhuras daquela superfície


os anjos fadados a não envelhecerem

se enchem de horríveis ruínas

interferências em sua pele azul de azulejo


papel é mesmo coisa muito agradável ao toque

parece mulher



e o que seria de nós se fôssemos apenas pés e coração?

26 de fev. de 2011

a mulher perfeita que tudo dá ao homem

No complexo de Don Juan, a imagem da mãe - a imagem da mulher perfeita que tudo dá ao homem, e que não tem nenhum defeito - é procurada em todas as mulheres. Ele procura uma mãe-deusa, portanto, cada vez que se apaixona por uma mulher, mas logo descobre que ela é um ser humano comum. Por ter sido atraído por ela sexualmente, toda a paixão de repente desaparece e ele decepciona-se e a deixa, apenas para projetar a imagem novamente em outra mulher, sempre repetindo a mesma história. Eternamente sonha com a mulher maternal que o tomará nos braços e realizará todos os seus desejos. Isto é frequentemente acompanhado pela atitude romântica da adoslescência. (Marie Louise von Franz)

14 de fev. de 2011

a feia

Hoje saí andando pelas ruas com uma cara de tá bom eu aceito que não sei o meu destino. Mas era uma cara misturada com uma outra cara de não me conformo por não ser eu quem controla tudo e define a hora certinha de acontecer todas as felicidades e nenhum problema, mas aceito o meu destino e já entendi que nada de bom vai me acontecer hoje. Andava com esta cara, e parecia alguém triste e admirável. Sim, eu era um tipo lastimável andando pelas ruas, mas devia ser uma cara bem interessante esta que eu fazia, porque os homens (principalmente) me olhavam muito e não me olhavam a bunda como costumam fazer mas a cara, a tal cara de aceito o destino mas na verdade não aceito porra nenhuma. Me olhavam e eu me gabava por dentro, como se tudo isso dissesse para mim, que, sim, eu cheguei a algum lugar respeitável. Certamente a tal cara devia ser deste tipo de mulher eleita como a ideal, algo como a ideia que se tem de Grande Dama: solene, discreta e triste. Essa categoria que os homens adoram, especialmente se vestirem rosa claro e renda. Essas que habitam altos níveis de idealismo e que são do tipo bezerrinho ou flor, sem genitália. Daí que eu concluí, que, hoje, mesmo sob tantos olhares, eu estava feia, muito feia. A mais feia.
E, numa gargalhada, mudei de cara.

26 de jan. de 2011

minhas férias

aqui o mar é calmo e gentil, mesmo sendo mar
cada onda me recebe dizendo frases de amor e delícias à minha perna
é bom receber assim a cada segundo tantas declarações de amor
(e eu que me julguei criatura que pagaria o castigo de nunca mais amar)
em retribuição eu o beijo freneticamente sem me importar com seu sal
não faço teatro porque cansei dos dramas e sinto o peso de te dizer tudo aquilo que você me perguntar
(pode perguntar)
estou me preparando para correr da chuva e me abrigar ao sol ou debaixo do cobertor, como for o caso
meu paladar saboreia o que eu julgava só existir na outra borda do equador

e eu posso ver um coqueiro a cada mirada para cima
não insisto em olhar para baixo para poder ver as folhas balançando
e não recuso nenhum mergulho porque respeito a profundidade
aqui ou lá, ou de onde eu vim, continuo estando
aqui mesmo dentro

mim

porque não há fuga - só passeio

8 de jan. de 2011

philippe halsman


30 de dez. de 2010

eu vi a casa que sou eu

ohlálaáhey!
eu hoje sou como uma casa vazia, nova, linda, pronta para receber os móveis, os quadros na parede e ser habitada por mim mesma mais a legião que me acompanha e me habita o coração. Todos nós, livres e prontos, para ocupar a casa linda, e dar um jeitinho nos restos de cimento e de argamassa deixados, vestígios da construção perene, tirar delicadamente os pinguinhos de tinta fresca. Tudo novo, reluzente: a beleza!

27 de dez. de 2010

o gato

eu sou um gato, mas eu posso virar um cachorro
eu sou um cachorro, mas posso virar um gato
eu sou um gato, mas posso virar um leão
eu sou um gato, mas posso virar uma onça
eu sou um gato, mas posso virar um hipopótamo
eu sou um gato, mas posso virar uma girafa

ele só não pode voar

(música inventada por Luiz, meu amigo, de 5 anos)

20 de dez. de 2010

Separação

sentimento
sentimento
sentimento
sem ti
sem ti
sem ti

19 de dez. de 2010

na direção

De repente, todos os meus retrovisores se quebraram, em mil cacos. Por sorte não me furaram os olhos, porque deles eu ia mesmo precisar – como se verá a seguir. Mas entendi que eu não devia mesmo olhar para o passado.
Seguir em frente.
Estava tensa, insegura, e fazia um barulho horrível com meus pés sobre o acelerador.
– Devo ficar, devo ir? Entro? Saio? Até onde devo ir?
E acelerava horrivelmente sem sair do lugar, o medo da colisão.
– Que encontro é este, meu Deus?
1º encontro. 2º encontro, último encontro: não somos compatíveis com a eternidade, a não ser que se morra.
– Não esbarre nas pilastras, no meio fio, nas pessoas.
Não esbarrarei.
– Eu esbarrei em você, querido?
– Tudo é máquina.
– Tudo é máquina – repeti.
– Máquina estraga.
– Meu organismo, minha cabeça, meu coração.
– Não esbarre nas pilastras.
– Sim, os pilares. O que está em cima também pode desabar.
Colisão, desabamento, nada disso acontecerá. (Psiu, é segredo: à
s vezes me parece que é necessário colidir, desabar para ver o que sobrevive, sabe?)
Seguir em frente.
– Ok, positivo e operante.
– As coisas boas estão aí, é só pegá-las.
Abri um estojo de maquiagem e procurei por pequeno espelho que substituísse os retrovisores quebrados: olhar o presente, olhar para o futuro. Cuidado! Cuidados! Atenção! Não pare na pista!
Ao olhar para mim mesma, olhos nos olhos, vi todo o passado e sua glória de sol em dia de chuva, e seus buracos, buracos, buracos.
– Mas você está então acertando todos os buracos. A gente desvia dos buracos, você não sabe?
Acho que de verdade eu não sabia.
Agora eu sei.
Segui, andando a pé, sem carro, sem acelerador – com minhas pernas grandes que correm léguas.
Texto escrito a partir do gênero intitulado por mim mesma como: fato onírico em esfera ficcional (rs)
Obs: a informação entre parênteses faz parte do nome do gênero.

conto de fadas

Desci da torre. E, para descer, ao invés de cabelo usei uma corda de pedreiro, suja de cimento. Fui ver um príncipe e pensei comigo mesmo:
- Uai, eu desci da torre sem o príncipe me chamar!
Senti-me mal por antecipar o enredo, e resolvi voltar então. O príncipe dormia à la bela adormecida, mas acordou quando eu movimentei o ar de sua mansão. E me propôs sexo.
Mas eu pisava pé ante pé e não queria acordá-lo. Sentia vontade de voltar para a torre. Hesitei entre seus lençóis, desconversei, subi.
Mas subir é muito mais difícil, princesa.

24 de nov. de 2010

diário de vida real

Finalmente plantei as filhotes da Bromélia em um lugar mais apropriado. Já não havia muito o que fazerem na casa da mãe. Incentivei essa saída com palavras e água de chuva porque eu sei que não é fácil sair da casa da mãe. Coitadas, estavam tão fechadinhas, circunscritinhas, que mal se podia ver seu interior. Sei que agora elas vão se abrir mais, ganhar novas camadas de vigor. É assim a vida adulta, deve ser. E, como disse o Vinícius, "quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém". Amor, bromelitas, amor para vocês!
Quebrei mais uma taça de vinho e amei mais uma vez as coisas tão lindas de vidro que eu tenho, todas tão prontinhas para quebrar. As taças tão frágeis de cristal, empilhadas na cristaleira da minha avó! São caríssimas, finas, reluzentes e horríveis - porque nunca foram usadas, (provavelmente nunca irão quebrar). As minhas taças não, todas quebram: sejam translúcidas, lisas, desenhadas ou coloridas, todas quebram. E, antes de se quebrarem, sustentam-se elegantes em hastes altas e finas, numa pose poderosa de quem não supõe uma queda - sempre iminente (pois eu tenho gatos). Ou talvez elas suponham sim, mas não temam. As minhas coisas de vidro, os meus gatos se encarregam de quebrar para mim. Mas hoje não, fui eu mesma quem quebrei uma taça.
E acabou.

22 de nov. de 2010

o dia de hoje não é o dia de amanhã

releio textos antigos em busca de uma sabedoria nova
vejo bem o que é a liberdade
coloco cada pingo de tempo em seu habitat natural: "fora com os relógios!"
gosto de sonho na boca, mel de um novo tempo que virá
detesto essa frase mas a mantenho na página pelo gosto de lembrar do que eu detesto
amo meus dedos cheios de marcas e cicatrizes que são bem a mulher que eu sou
não me orgulho nem me envergonho disso, esse amor
apenas amo de um amor tão mais genuíno que me foi infinitamente difícil saber que era amor
- essa palavra perigosa
não tenho mais melindres com palavras verdadeiras
sei dizer fodas com diversas entonações
e isso tudo não é ainda tudo
nem de longe, de forma alguma