aqui o mar é calmo e gentil, mesmo sendo mar
cada onda me recebe dizendo frases de amor e delícias à minha perna
é bom receber assim a cada segundo tantas declarações de amor
(e eu que me julguei criatura que pagaria o castigo de nunca mais amar)
em retribuição eu o beijo freneticamente sem me importar com seu sal
não faço teatro porque cansei dos dramas e sinto o peso de te dizer tudo aquilo que você me perguntar (pode perguntar)
estou me preparando para correr da chuva e me abrigar ao sol ou debaixo do cobertor, como for o caso
meu paladar saboreia o que eu julgava só existir na outra borda do equador
e eu posso ver um coqueiro a cada mirada para cima
não insisto em olhar para baixo para poder ver as folhas balançando
e não recuso nenhum mergulho porque respeito a profundidade
aqui ou lá, ou de onde eu vim, continuo estando
aqui mesmo dentro
mim
porque não há fuga - só passeio
26 de jan. de 2011
8 de jan. de 2011
30 de dez. de 2010
eu vi a casa que sou eu
ohlálaáhey!
eu hoje sou como uma casa vazia, nova, linda, pronta para receber os móveis, os quadros na parede e ser habitada por mim mesma mais a legião que me acompanha e me habita o coração. Todos nós, livres e prontos, para ocupar a casa linda, e dar um jeitinho nos restos de cimento e de argamassa deixados, vestígios da construção perene, tirar delicadamente os pinguinhos de tinta fresca. Tudo novo, reluzente: a beleza!
27 de dez. de 2010
o gato
eu sou um gato, mas eu posso virar um cachorro
eu sou um cachorro, mas posso virar um gato
eu sou um gato, mas posso virar um leão
eu sou um gato, mas posso virar uma onça
eu sou um gato, mas posso virar um hipopótamo
eu sou um gato, mas posso virar uma girafa
ele só não pode voar
(música inventada por Luiz, meu amigo, de 5 anos)
eu sou um cachorro, mas posso virar um gato
eu sou um gato, mas posso virar um leão
eu sou um gato, mas posso virar uma onça
eu sou um gato, mas posso virar um hipopótamo
eu sou um gato, mas posso virar uma girafa
ele só não pode voar
(música inventada por Luiz, meu amigo, de 5 anos)
20 de dez. de 2010
Separação
sentimento
sentimento
sentimento
sem ti
sem ti
sem ti
sentimento
sentimento
sem ti
sem ti
sem ti
alguma coisa em comum com
a mulher do sentimento é sentimenta
19 de dez. de 2010
na direção
De repente, todos os meus retrovisores se quebraram, em mil cacos. Por sorte não me furaram os olhos, porque deles eu ia mesmo precisar – como se verá a seguir. Mas entendi que eu não devia mesmo olhar para o passado.
Seguir em frente.
Estava tensa, insegura, e fazia um barulho horrível com meus pés sobre o acelerador.
– Devo ficar, devo ir? Entro? Saio? Até onde devo ir?
E acelerava horrivelmente sem sair do lugar, o medo da colisão.
– Que encontro é este, meu Deus?
1º encontro. 2º encontro, último encontro: não somos compatíveis com a eternidade, a não ser que se morra.
– Não esbarre nas pilastras, no meio fio, nas pessoas.
Não esbarrarei.
Seguir em frente.
Estava tensa, insegura, e fazia um barulho horrível com meus pés sobre o acelerador.
– Devo ficar, devo ir? Entro? Saio? Até onde devo ir?
E acelerava horrivelmente sem sair do lugar, o medo da colisão.
– Que encontro é este, meu Deus?
1º encontro. 2º encontro, último encontro: não somos compatíveis com a eternidade, a não ser que se morra.
– Não esbarre nas pilastras, no meio fio, nas pessoas.
Não esbarrarei.
– Eu esbarrei em você, querido?
– Tudo é máquina.
– Tudo é máquina – repeti.
– Máquina estraga.
– Meu organismo, minha cabeça, meu coração.
– Não esbarre nas pilastras.
– Sim, os pilares. O que está em cima também pode desabar.
Colisão, desabamento, nada disso acontecerá. (Psiu, é segredo: às vezes me parece que é necessário colidir, desabar para ver o que sobrevive, sabe?)
– Tudo é máquina – repeti.
– Máquina estraga.
– Meu organismo, minha cabeça, meu coração.
– Não esbarre nas pilastras.
– Sim, os pilares. O que está em cima também pode desabar.
Colisão, desabamento, nada disso acontecerá. (Psiu, é segredo: às vezes me parece que é necessário colidir, desabar para ver o que sobrevive, sabe?)
Seguir em frente.
– Ok, positivo e operante.
– As coisas boas estão aí, é só pegá-las.
Abri um estojo de maquiagem e procurei por pequeno espelho que substituísse os retrovisores quebrados: olhar o presente, olhar para o futuro. Cuidado! Cuidados! Atenção! Não pare na pista!
Ao olhar para mim mesma, olhos nos olhos, vi todo o passado e sua glória de sol em dia de chuva, e seus buracos, buracos, buracos.
– Mas você está então acertando todos os buracos. A gente desvia dos buracos, você não sabe?
Acho que de verdade eu não sabia.
Agora eu sei.
– Ok, positivo e operante.
– As coisas boas estão aí, é só pegá-las.
Abri um estojo de maquiagem e procurei por pequeno espelho que substituísse os retrovisores quebrados: olhar o presente, olhar para o futuro. Cuidado! Cuidados! Atenção! Não pare na pista!
Ao olhar para mim mesma, olhos nos olhos, vi todo o passado e sua glória de sol em dia de chuva, e seus buracos, buracos, buracos.
– Mas você está então acertando todos os buracos. A gente desvia dos buracos, você não sabe?
Acho que de verdade eu não sabia.
Agora eu sei.
Segui, andando a pé, sem carro, sem acelerador – com minhas pernas grandes que correm léguas.
Texto escrito a partir do gênero intitulado por mim mesma como: fato onírico em esfera ficcional (rs)
Obs: a informação entre parênteses faz parte do nome do gênero.
alguma coisa em comum com
não é nada disso que eu queria dizer
conto de fadas
Desci da torre. E, para descer, ao invés de cabelo usei uma corda de pedreiro, suja de cimento. Fui ver um príncipe e pensei comigo mesmo:
- Uai, eu desci da torre sem o príncipe me chamar!
Senti-me mal por antecipar o enredo, e resolvi voltar então. O príncipe dormia à la bela adormecida, mas acordou quando eu movimentei o ar de sua mansão. E me propôs sexo.
Mas eu pisava pé ante pé e não queria acordá-lo. Sentia vontade de voltar para a torre. Hesitei entre seus lençóis, desconversei, subi.
Mas subir é muito mais difícil, princesa.
24 de nov. de 2010
diário de vida real
Finalmente plantei as filhotes da Bromélia em um lugar mais apropriado. Já não havia muito o que fazerem na casa da mãe. Incentivei essa saída com palavras e água de chuva porque eu sei que não é fácil sair da casa da mãe. Coitadas, estavam tão fechadinhas, circunscritinhas, que mal se podia ver seu interior. Sei que agora elas vão se abrir mais, ganhar novas camadas de vigor. É assim a vida adulta, deve ser. E, como disse o Vinícius, "quem de dentro de si não sai vai morrer sem amar ninguém". Amor, bromelitas, amor para vocês!
Quebrei mais uma taça de vinho e amei mais uma vez as coisas tão lindas de vidro que eu tenho, todas tão prontinhas para quebrar. As taças tão frágeis de cristal, empilhadas na cristaleira da minha avó! São caríssimas, finas, reluzentes e horríveis - porque nunca foram usadas, (provavelmente nunca irão quebrar). As minhas taças não, todas quebram: sejam translúcidas, lisas, desenhadas ou coloridas, todas quebram. E, antes de se quebrarem, sustentam-se elegantes em hastes altas e finas, numa pose poderosa de quem não supõe uma queda - sempre iminente (pois eu tenho gatos). Ou talvez elas suponham sim, mas não temam. As minhas coisas de vidro, os meus gatos se encarregam de quebrar para mim. Mas hoje não, fui eu mesma quem quebrei uma taça.
E acabou.
22 de nov. de 2010
o dia de hoje não é o dia de amanhã
releio textos antigos em busca de uma sabedoria nova
vejo bem o que é a liberdade
coloco cada pingo de tempo em seu habitat natural: "fora com os relógios!"
gosto de sonho na boca, mel de um novo tempo que virá
detesto essa frase mas a mantenho na página pelo gosto de lembrar do que eu detesto
amo meus dedos cheios de marcas e cicatrizes que são bem a mulher que eu sou
não me orgulho nem me envergonho disso, esse amor
apenas amo de um amor tão mais genuíno que me foi infinitamente difícil saber que era amor
- essa palavra perigosa
não tenho mais melindres com palavras verdadeiras
sei dizer fodas com diversas entonações
e isso tudo não é ainda tudo
nem de longe, de forma alguma
vejo bem o que é a liberdade
coloco cada pingo de tempo em seu habitat natural: "fora com os relógios!"
gosto de sonho na boca, mel de um novo tempo que virá
detesto essa frase mas a mantenho na página pelo gosto de lembrar do que eu detesto
amo meus dedos cheios de marcas e cicatrizes que são bem a mulher que eu sou
não me orgulho nem me envergonho disso, esse amor
apenas amo de um amor tão mais genuíno que me foi infinitamente difícil saber que era amor
- essa palavra perigosa
não tenho mais melindres com palavras verdadeiras
sei dizer fodas com diversas entonações
e isso tudo não é ainda tudo
nem de longe, de forma alguma
20 de nov. de 2010
tristeza
primeiro acendi uma vela e pedi a tudo o que fosse luminoso: que o sofrimento, dessa vez, fosse menor do que o de antes!
lavei todos os copos e roupas sujas para ocupar as mãos com água e esquecer um pouco dos olhos e do coração tão úmidos naquele momento
senti-me tão seca, resolvi beber água
(vontade de quebrar o copo com as mãos e sentir o meu sangue
só pra lembrar que isto é a que chamam vida)
fui para o quintal e arranquei todos os matos ferozes
me arranhei muito e senti todo meu suor
- essas coisas que também fazem parte do que se chama vida
abracei-me ao pé de laranja justamente porque são seus arbustos cheios de espinhos,
ou seja, mais sangue, a escorrer-me por todo tronco e vestido de seda
vi que os bichos de estimação poderiam estar querendo algum amor que viesse de mim, mas ali estava - logo ali - o pacote de ração e sua realidade sorrindo ao lado
só me restou lavar o rosto e fingir força por mais uma vez
sim - eu continuo viva: eis o sangue escorrendo.
lavei todos os copos e roupas sujas para ocupar as mãos com água e esquecer um pouco dos olhos e do coração tão úmidos naquele momento
senti-me tão seca, resolvi beber água
(vontade de quebrar o copo com as mãos e sentir o meu sangue
só pra lembrar que isto é a que chamam vida)
fui para o quintal e arranquei todos os matos ferozes
me arranhei muito e senti todo meu suor
- essas coisas que também fazem parte do que se chama vida
abracei-me ao pé de laranja justamente porque são seus arbustos cheios de espinhos,
ou seja, mais sangue, a escorrer-me por todo tronco e vestido de seda
vi que os bichos de estimação poderiam estar querendo algum amor que viesse de mim, mas ali estava - logo ali - o pacote de ração e sua realidade sorrindo ao lado
só me restou lavar o rosto e fingir força por mais uma vez
sim - eu continuo viva: eis o sangue escorrendo.
o que é o amor
Ainda que eu fale todas as línguas,
dos homens e dos anjos,
se eu não tiver o amor serei apenas
um bronze que ressoa,
um címbalo que retine.
Ainda que possua o dom das profecias
e conheça todos os mistérios,
que saiba todas as ciências,
ainda que eu alcance um tal grau de fé
que me torne capaz de remover montanhas,
se eu não tiver o amor,
não serei nada.
Ainda que eu reparta todos os meus bens,
entre os pobres,
e deixe então o fogo consumir meu corpo,
nenhum proveito tiro,
se eu não tiver o amor!
O amor é paciente,
o amor é bondoso,
não é nada invejoso,
arrogante,
orgulhoso.
Jamais é descortês
e nunca intresseiro.
Não se irrita,
nem guarda rancor no coração.
Detesta a injustiça,
gosta da verdade.
Tudo desculpa,
tudo crê,
tudo espera,
tudo suporta.
O amor não terá fim;
as profecias sim.
As línguas calarão
e as ciências têm seu termo.
Imperfeito é o nosso conhecimento
e também as profecias.
Mas quando vier o que é perfeito,
o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
como criança raciocinava.
Homem feito, me despojei dos atributos de criança.
Por enquanto,
enxergamos obliquamente,
por um espelho.
Mas, um dia,
nós teremos a visão
- de face a face.
Por enquanto,
conheço apenas uma parte.
mas logo o conhecerei,
como sou por ele conhecido.
Temos agora
a fé,
a esperança,
o amor.
Mas, dos três, o mais excelente
é o amor.
dos homens e dos anjos,
se eu não tiver o amor serei apenas
um bronze que ressoa,
um címbalo que retine.
Ainda que possua o dom das profecias
e conheça todos os mistérios,
que saiba todas as ciências,
ainda que eu alcance um tal grau de fé
que me torne capaz de remover montanhas,
se eu não tiver o amor,
não serei nada.
Ainda que eu reparta todos os meus bens,
entre os pobres,
e deixe então o fogo consumir meu corpo,
nenhum proveito tiro,
se eu não tiver o amor!
O amor é paciente,
o amor é bondoso,
não é nada invejoso,
arrogante,
orgulhoso.
Jamais é descortês
e nunca intresseiro.
Não se irrita,
nem guarda rancor no coração.
Detesta a injustiça,
gosta da verdade.
Tudo desculpa,
tudo crê,
tudo espera,
tudo suporta.
O amor não terá fim;
as profecias sim.
As línguas calarão
e as ciências têm seu termo.
Imperfeito é o nosso conhecimento
e também as profecias.
Mas quando vier o que é perfeito,
o que é imperfeito desaparecerá.
Quando eu era criança,
falava como criança,
pensava como criança,
como criança raciocinava.
Homem feito, me despojei dos atributos de criança.
Por enquanto,
enxergamos obliquamente,
por um espelho.
Mas, um dia,
nós teremos a visão
- de face a face.
Por enquanto,
conheço apenas uma parte.
mas logo o conhecerei,
como sou por ele conhecido.
Temos agora
a fé,
a esperança,
o amor.
Mas, dos três, o mais excelente
é o amor.
19 de nov. de 2010
sumir no mundo
se pergunta a uma chama de vela qual será o seu fim?
se sabe pra onde vai o amor na sua cadência normal de se esvair?
o som que eu pronuncio ecoa ainda por quanto tempo no universo?
e se eu estralar os dedos quanto mesmo dura isso?
como eu faço para sumir?
de que músculo osso sangue devo me privar
até atingir a transparência?
se sabe pra onde vai o amor na sua cadência normal de se esvair?
o som que eu pronuncio ecoa ainda por quanto tempo no universo?
e se eu estralar os dedos quanto mesmo dura isso?
como eu faço para sumir?
de que músculo osso sangue devo me privar
até atingir a transparência?
10 de nov. de 2010
naqueles dias
Eu acordei hoje tateando uma coisa que nunca estaria na minha cama e não falo que é o seu corpo porque este tem estado comigo com muita frequência.
Estava procurando com os dedos o cheiro que costumo sentir no meu travesseiro e que talvez seja resquício dos sonhos que ando tendo.
Procurei, procurei, procurei... e tive uma epifania: eu havia esquecido de fechar os olhos. Fechei, então, mas senti-me mesmo cansada do infinito e berrei:
- Tire esse peso daqui.
Gritei para Deus é óbvio, porque só ele mesmo poderia ser interlocutor de um berro desses. E é claro que a resposta foi um riso suave e calmo, que me dizia sem palavras: o peso é todo seu, querida! O que você vai eliminar para não afundar o seu barco?
E assim foi, acredita?
18 de out. de 2010
diário de vida real
Hoje, salvei uma lagartixa de dentro da boca do gato
mas ele comeu o rabo dela e talvez tenha uma indigestão.
Minha mãe sonhou comigo: eu estava grávida e pari um gato de pelúcia rosa em formato de coração.
Gostei!
mas ele comeu o rabo dela e talvez tenha uma indigestão.
Minha mãe sonhou comigo: eu estava grávida e pari um gato de pelúcia rosa em formato de coração.
Gostei!
alguma coisa em comum com
o mais emocionante que tem me acontecido
17 de out. de 2010
eis que não há sinônimo
"menor" não é o mesmo que "criança"
"planeta" é diferente de "mundo"
e "amor" na minha boca soa outro beijo, não é mesmo?
"planeta" é diferente de "mundo"
e "amor" na minha boca soa outro beijo, não é mesmo?
alguma coisa em comum com
o melhor é falar muito
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