22 de jun. de 2010
existo
insisto em me apresentar
eu sou a mulher que enterra passarinhos de olhos semi-cerrados assasinados pelos gatos
eu sou a que sabe assobiar todas as canções tristes e por ora é alegre
eu sou a mulher que enterra passarinhos de olhos semi-cerrados assasinados pelos gatos
eu sou a que sabe assobiar todas as canções tristes e por ora é alegre
17 de jun. de 2010
dois de Mário Quintana
SIMULTANEIDADE
- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta
OS DEGRAUS
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
16 de jun. de 2010
11 de jun. de 2010
com sentimento
Veja bem:
peço desculpas por ter adormecido sua cabeça em meu ventre.
Não quero o seu pensamento assim tão baixo.
De você, o que eu quero é peito.
peço desculpas por ter adormecido sua cabeça em meu ventre.
Não quero o seu pensamento assim tão baixo.
De você, o que eu quero é peito.
7 de jun. de 2010
Amor, Vinícius de Moraes
Vamos brincar, amor? vamos jogar peteca
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.
Vamos atrapalhar os outros, amor, vamos sair correndo
Vamos subir no elevador, vamos sofrer calmamente e sem precipitação?
Vamos sofrer, amor? males da alma, perigos
Dores de má fama íntimas como as chagas de Cristo
Vamos, amor? vamos tomar porre de absinto
Vamos tomar porre de coisa bem esquisita, vamos
Fingir que hoje é domingo, vamos ver
O afogado na praia, vamos correr atrás do batalhão?
Vamos, amor, tomar thé na Cavé com madame de Sevignée
Vamos roubar laranja, falar nome, vamos inventar
Vamos criar beijo novo, carinho novo, vamos visitar N. S. do Parto?
Vamos, amor? vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos
Vamos fazer neném dormir, botar ele no urinol
Vamos, amor?
Porque excessivamente grave é a Vida.
6 de jun. de 2010
5 de jun. de 2010
fa-tal
Se você me vir
vestida de preto
e meias vermelhas
e olhos negros
e bocas úmidas demais
e se você sentir um calor
saiba:
isto é um teste
desafio, charada, enigma
um teste para seus olhos:
o que você vê além?
o que você alcança, miopia?
o que podem esses seus olhos sem lente de contato?
você consegue atingir a tristeza
do que sou eu por sob o corpete?
tristeza, beleza, profundidade...
sinônimos nesse caso.
vestida de preto
e meias vermelhas
e olhos negros
e bocas úmidas demais
e se você sentir um calor
saiba:
isto é um teste
desafio, charada, enigma
um teste para seus olhos:
o que você vê além?
o que você alcança, miopia?
o que podem esses seus olhos sem lente de contato?
você consegue atingir a tristeza
do que sou eu por sob o corpete?
tristeza, beleza, profundidade...
sinônimos nesse caso.
alguma coisa em comum com
pois pra fazer um samba com beleza
4 de jun. de 2010
tudo em seu repouso mais absoluto
vez por outra, me vem um fundo de tristeza ao perceber que somos um resto de uma intimidade que não existe mais. que conversamos sobre nada se nos encontramos. e não sabemos mais o número para o qual se liga nessas horas. e, se sabemos, seguramos o fone, ainda no gancho, lembrando tantas conversas de outrora que não existirão mais. porque não cabem em quem sou eu agora. em quem é você agora.
um fundo de tristeza, sabe? porque não há mais como continuar a última conversa. o tempo passou demais. permitimos. desejamos que passasse. esquecemos.
mas vez por outra, vem... o fundo de tristeza. saudade de algo que julgamos, ingênuos demais, que era comunicabilidade. (que bobagem! isso não existe.)
um fundo de tristeza, sabe? porque não há mais como continuar a última conversa. o tempo passou demais. permitimos. desejamos que passasse. esquecemos.
mas vez por outra, vem... o fundo de tristeza. saudade de algo que julgamos, ingênuos demais, que era comunicabilidade. (que bobagem! isso não existe.)
alguma coisa em comum com
estou indo para Nebraska,
tudo pode ser nada é
31 de mai. de 2010
28 de mai. de 2010
simple red
Uma partitura velha, com marcações arcaicas no pentagrama. Você me tirou isso da pasta e eu que nunca soube que você lia partituras... As folhas amareladas. Um certo suspense: você solfejaria aquilo pra mim. A música falava algo como "Euteamo, oh, querida." E eu pensava: "Que bobagem." E: "Talvez não seja a música certa". Era mesmo uma complexa partitura. Eu não acreditava que você pudesse lê-la.
Você não cantou os outros versos. Parecia não lembrar.
- Mas olhe a partitura.
Os símbolos arcaicos. Uma hesitação sobre o que fazer com aquelas folhas inúteis.
Ligamos o rádio. Eu cantarolei bobamente a música familiar e comercial que tocou. E você disse: Que bom... pelo menos você gosta de Simple Red. Eu não sabia que gostava de Simple Red e duvidei se isso era bom.
Você não cantou os outros versos. Parecia não lembrar.
- Mas olhe a partitura.
Os símbolos arcaicos. Uma hesitação sobre o que fazer com aquelas folhas inúteis.
Ligamos o rádio. Eu cantarolei bobamente a música familiar e comercial que tocou. E você disse: Que bom... pelo menos você gosta de Simple Red. Eu não sabia que gostava de Simple Red e duvidei se isso era bom.
alguma coisa em comum com
do sonho eu quero todas as melodias
27 de mai. de 2010
O mundo de Bad’ó
Trágico e fascinante
O mundo de Bad’ó tem muitas luzes piscantes. Néon. O curioso é que não há dia nem noite, só néon e escuridão. Neste mundo as pessoas mantém os olhos arregalados para refletir o néon. Na verdade, elas acreditam absorver o néon e acreditam no brilho de seus olhos como algo de muita profundidade. Mas é só reflexo.
E é para não perder este brilho verde-azulado excitante – ou vermelho incandescente – que os habitantes do mundo de Bad’ó nunca piscam os olhos: eles foram proibidos de mostrar olhos piscos ou atônitos no meio da turbulência multicolorida. Por isso, o viajante que chega ao mundo de Bad’ó estranha um pouco encontrar tantas faces neutras.
Surpreendentemente, a rotina, neste mundo sem sol, existe.
Bad’ó e os outros habitantes acordam todos os dias e entram no mundo. Simplesmente. Estão todos cansados, mas não se escolhe o mundo em que se vive. Ou se escolhe?
Logo cedo, as línguas saltam das bocas e encontram outras, vermelhas como os lençóis gastos e sujos em que todos dormem amontoados.
Línguas soltas no ar, genitálias dependuradas em quadros de piche. Bonecos de playmobil desenhados. Muita carne envolta por roupas de couro. Este é o cenário.
Lá, os homens se recusam a fazer a barba e as mulheres insistem em ficar carecas.
O cheiro de sexo é muito forte, e gritos de gozo ecoam pelo ar.
Às vezes, como escape, Bad’ó, em seu próprio mundo, fecha os olhos e sonha com uma jovem de cabelos loiros. Em seu sonho, essa mulher pega uma cesta de linhas e borda uma caveira rosada em sua camisa de rock. Uma bela combinação.
Com a cabeça nos cabelos adocicados de sua mulher imaginária, Bad’ó aperta, quase esmagando os ossos, uma outra moça de meias azuis. É azul royal, e são meias longas. A mulher nos braços de Bad’ó é esquálida e esconde um segredo: também sonha, por trás dos olhos neutros. Sonha com um homem de dedos capazes de afastar delicado o fio de cabelo que pende de sua fronte. Na verdade, ela é bem a mulher rósea dos bordados, mas não parece, nem de longe. Bad’ó não pode ver porque as luzes são muito fortes e coloridas e se ele piscar os olhos... sua fragilidade...
Ademais, ele só pensa no rosa, confia demais nas cores, sem saber que esta superfície importa bem pouco nesse caso.
A única coisa que salvaria Bad’ó neste momento seria um pouco de luz branca. Esta cor importa. Mas antes ele teria que fechar as pálpebras com intensidade e por alguns séculos de segundos para alcançar algo da ordem da brancura. E isso não é possível.
A mulher de olhos escuros e roupa escura e meia azul royal não pode mostrar doçura, é outra proibição do mundo governado por Bad’ó, que inventou um pacto de força contrária à doçura. Sim, ele ignora seus sonhos. Por isso, ela nunca verá os dedos delicados de Bad’ó – ele não pretende desperdiçá-los com ela. Os dedos de Bad’ó já aprenderam, como num vício, a puxar com força os cabelos de mulheres que usam meia azul royal, e a boca também já está viciada, como num aprendizado autômato, a dizer palavras como “putinha”.
E a moça ri e gosta, de verdade. Enquanto permanece sonhando com outras verdades, outros lençóis, outras firmezas. Um cobertor cheirando a amaciante, naquela cama.
Todas as noites, os dois se despedem. Certos de que não encontraram o que procuravam. Afeto.
Se vão, cheios. Repletos. E insatisfeitos. Porque o que os enche não pôde ser dado. “Parece que ninguém quis”, afirmam, enganando-se.
No mundo de Bad’ó, vergonha maior é deixar vazar: lágrima, sentimento, ou qualquer outra aberração do tipo. É um mundo de esbórnia agradável e triste – como toda esbórnia.
Eu não sou habitante do mundo de Bad’ó nem pretendo me mudar para lá, mas o frequento amiúde: por curiosidade, conveniência ou transe.
Meus olhos de estrangeira piscam muito, por causa das luzes, dos sons e das texturas. Todos me olham de um jeito estranho. Riem muito (por dentro, para não ferir a neutralidade de suas faces) de meus olhos arregalados e estranhados. Como se não fosse permitido.
Na verdade, não é mesmo. Eu é que burlo a lei. Eu desço até esse mundo underground procurando pelo meu próprio. E enquanto não o acho, ele também me serve: as línguas, o piche, as carnes, os cabelos puxados. Aceito tudo. E uso meias azuis.
Meu único defeito é piscar os olhos, o que me denuncia como forasteira logo de cara.
E eu, que custo a admitir meu romantismo, devo dizer que penso no dia em que a moça fará bordados para Bad-ó, enquanto piscariam juntos e delicados, enfrentando toda a luz branca que houvesse, mesmo em tempos de trevas.
O mundo de Bad’ó tem muitas luzes piscantes. Néon. O curioso é que não há dia nem noite, só néon e escuridão. Neste mundo as pessoas mantém os olhos arregalados para refletir o néon. Na verdade, elas acreditam absorver o néon e acreditam no brilho de seus olhos como algo de muita profundidade. Mas é só reflexo.
E é para não perder este brilho verde-azulado excitante – ou vermelho incandescente – que os habitantes do mundo de Bad’ó nunca piscam os olhos: eles foram proibidos de mostrar olhos piscos ou atônitos no meio da turbulência multicolorida. Por isso, o viajante que chega ao mundo de Bad’ó estranha um pouco encontrar tantas faces neutras.
Surpreendentemente, a rotina, neste mundo sem sol, existe.
Bad’ó e os outros habitantes acordam todos os dias e entram no mundo. Simplesmente. Estão todos cansados, mas não se escolhe o mundo em que se vive. Ou se escolhe?
Logo cedo, as línguas saltam das bocas e encontram outras, vermelhas como os lençóis gastos e sujos em que todos dormem amontoados.
Línguas soltas no ar, genitálias dependuradas em quadros de piche. Bonecos de playmobil desenhados. Muita carne envolta por roupas de couro. Este é o cenário.
Lá, os homens se recusam a fazer a barba e as mulheres insistem em ficar carecas.
O cheiro de sexo é muito forte, e gritos de gozo ecoam pelo ar.
Às vezes, como escape, Bad’ó, em seu próprio mundo, fecha os olhos e sonha com uma jovem de cabelos loiros. Em seu sonho, essa mulher pega uma cesta de linhas e borda uma caveira rosada em sua camisa de rock. Uma bela combinação.
Com a cabeça nos cabelos adocicados de sua mulher imaginária, Bad’ó aperta, quase esmagando os ossos, uma outra moça de meias azuis. É azul royal, e são meias longas. A mulher nos braços de Bad’ó é esquálida e esconde um segredo: também sonha, por trás dos olhos neutros. Sonha com um homem de dedos capazes de afastar delicado o fio de cabelo que pende de sua fronte. Na verdade, ela é bem a mulher rósea dos bordados, mas não parece, nem de longe. Bad’ó não pode ver porque as luzes são muito fortes e coloridas e se ele piscar os olhos... sua fragilidade...
Ademais, ele só pensa no rosa, confia demais nas cores, sem saber que esta superfície importa bem pouco nesse caso.
A única coisa que salvaria Bad’ó neste momento seria um pouco de luz branca. Esta cor importa. Mas antes ele teria que fechar as pálpebras com intensidade e por alguns séculos de segundos para alcançar algo da ordem da brancura. E isso não é possível.
A mulher de olhos escuros e roupa escura e meia azul royal não pode mostrar doçura, é outra proibição do mundo governado por Bad’ó, que inventou um pacto de força contrária à doçura. Sim, ele ignora seus sonhos. Por isso, ela nunca verá os dedos delicados de Bad’ó – ele não pretende desperdiçá-los com ela. Os dedos de Bad’ó já aprenderam, como num vício, a puxar com força os cabelos de mulheres que usam meia azul royal, e a boca também já está viciada, como num aprendizado autômato, a dizer palavras como “putinha”.
E a moça ri e gosta, de verdade. Enquanto permanece sonhando com outras verdades, outros lençóis, outras firmezas. Um cobertor cheirando a amaciante, naquela cama.
Todas as noites, os dois se despedem. Certos de que não encontraram o que procuravam. Afeto.
Se vão, cheios. Repletos. E insatisfeitos. Porque o que os enche não pôde ser dado. “Parece que ninguém quis”, afirmam, enganando-se.
No mundo de Bad’ó, vergonha maior é deixar vazar: lágrima, sentimento, ou qualquer outra aberração do tipo. É um mundo de esbórnia agradável e triste – como toda esbórnia.
Eu não sou habitante do mundo de Bad’ó nem pretendo me mudar para lá, mas o frequento amiúde: por curiosidade, conveniência ou transe.
Meus olhos de estrangeira piscam muito, por causa das luzes, dos sons e das texturas. Todos me olham de um jeito estranho. Riem muito (por dentro, para não ferir a neutralidade de suas faces) de meus olhos arregalados e estranhados. Como se não fosse permitido.
Na verdade, não é mesmo. Eu é que burlo a lei. Eu desço até esse mundo underground procurando pelo meu próprio. E enquanto não o acho, ele também me serve: as línguas, o piche, as carnes, os cabelos puxados. Aceito tudo. E uso meias azuis.
Meu único defeito é piscar os olhos, o que me denuncia como forasteira logo de cara.
E eu, que custo a admitir meu romantismo, devo dizer que penso no dia em que a moça fará bordados para Bad-ó, enquanto piscariam juntos e delicados, enfrentando toda a luz branca que houvesse, mesmo em tempos de trevas.
23 de mai. de 2010
20 de mai. de 2010
além da cidade dos homens
LOUCO, ODe todas as imagens do jogo do Tarô, eis a mais misteriosa, a mais fascinante, portanto, e a mais inquietante. Diferentemente dos outros arcanos maiores, numerados de um a vinte e um. O Louco não tem número. Ele se coloca, portanto, de fora do jogo, isto é fora das cidades dos homens, fora dos muros. Ele caminha apoiado em um bastão de ouro, na cabeça um boné da mesma cor, parecido com o cesto que simboliza a loucura; suas calças estão rasgadas e, sem que ele pareça se dar conta, um cachorro, atrás dele, agarra o tecido, deixando aparecer a carne nua. É um louco, concluirá o observador, abrigado por trás das seteras da cidade. É um Mestre, murmurará o filósofo hermético, notando que o bastão, em cuja ponta ele carrega uma trouxa, sobre o ombro, é branco, da cor do segredo, cor da iniciação, e que seus pés calçados de vermelho se apoiam firmemente sobre um chão bem real, e não sobre um suporte imaginário. Sua sacola está vazia, mas é cor-de-rosa, como sua coxa e como o cachorro que tenta agarrá-lo: símbolos da natureza animal e de posses, com as quais não se preocupa. Por outro lado, o ouro do conhecimento e das verdade transcendentais é a cor do bastão sobre o qual ele se apoia, da terra sobre a qual ele caminha, dos seus ombros e do seu cabelo. E acima de tudo, ele caminha, isso é o importante, ele não vaga errante, ele avança.
[...] ele caminha na frente, com uma evidência solar, sobre as terras virgens do conhecimento, por além da cidade dos homens.
(Gherbrant & Chevalier. Dicionário dos símbolos.)
[...] ele caminha na frente, com uma evidência solar, sobre as terras virgens do conhecimento, por além da cidade dos homens.
(Gherbrant & Chevalier. Dicionário dos símbolos.)
alguma coisa em comum com
a loucura do sentido,
o sentido da loucura
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